Por
Nirlando Beirão
O Nordeste de Amores
Roubados – a minissérie
que a Globo exibiu esta semana, na sequência da nefanda Amor à Vida – é o
Nordeste pós-Lula, afluente, industrial, eventualmente próspero,
de casarões com adegas e carrões SUVs, mas que
continua ancorado no patriarcalismo, empresários modernos com alma
de coronéis obsoletos.
Um
Nordeste cujo produtor de vinhos enverga uma barba digna de oligarca da República
Velha, enquanto a filhota recém-chegada das Oropas confere
ao Sertão – Sertão é, aliás, o hiperbólico e rebarbativo nome do município –
o definitivo toque de modernidade, projetando-se de uma ponte do São
Francisco, no deleite vertiginoso do bungee jump.
Mulheres
que se jogam é a metáfora aparentemente fácil que contrapõe o
predomínio machista às angústias
de senhoras sexualmente desassistidas – e para cujo reconforto afetivo entra em
cena o bonitão urbanizado e nem por isso menos cafajeste, caracterizado no ofício
sabidamente insidioso de sommelier, especialista em gosto e retrogosto.
É
interessante perceber, na Globo, a prospecção de novos formatos de
dramaturgia, ainda que relegados ao horário das corujas. Vale
também festejar a maturidade de atores crescidos no Projac (Cauã
Reymond, Isis Valverde, Murilo Benício). Pena que ninguém
cogitou, para o papel de coronel arrependido, do governador Eduardo Campos.
O mérito maior do autor George Moura e do diretor José Luiz
Villarim) é revelar um Nordeste além da caricatura. A
começar pelo sotaque mais sutil, mais nuançado,
sem o exagero das produções à Jorge Amado. Fugir do sotaque forçado é
fugir da prisão do estereótipo. Patrícia Pillar, que tem conhecimento de causa, deve ter ajudado no coaching.

Nenhum comentário:
Postar um comentário