quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Fragmentos do descobrir-se negra

                                                             Imagem – Guilherme Vieira.


Por Gabriela Pires
Ser mulher negra é uma construção diária de identidade. A minha identidade negra começou a ser construída, infelizmente, há pouquíssimo tempo, mais ou menos há dois anos quando decidi prestar o vestibular. Fiz cursinho popular e concorri como cotista para o curso de Design Gráfico. Na época, prestei ainda com um pouco de relutância, parte por ter a sensação de estar tirando a oportunidade de outra pessoa que precisasse mais do que eu, e parte (este com um peso maior) por não me enxergar como negra. Lembro que essa dúvida não vinha apenas de mim, mas também dos meus pais e irmão.
Será que eu era “negra o suficiente”? Minhas neuroses gritavam pra mim dizendo que a universidade seria o lugar que nos olhariam e nos apontariam o dedo dizendo: você é negro, você não é negra… próximo! Ao entrar na entrevista para candidatos cotistas minhas dúvidas começaram a se diluir aos poucos. Lá estavam negros de todos os tons de pele e, para minha surpresa, de pele até mais clara que a minha.
E lá estava dona Vilma Santos de Oliveira, Yá Mukumby, a mulher que acendeu a primeira chama da minha consciência negra. Ela nos alertou, aos candidatos cotistas, quanto às dificuldades que poderíamos nos deparar na universidade, mas que apesar de tudo ela esperava que não nos embranquecêssemos frente a elas.
Apesar de termos nos visto uma única vez, gostaria de dizer Yá, esteja onde estiver, que eu a agradeço imensamente e eternamente, por começar a mudar a minha vida completamente.
A construção da identidade negra não é fácil. Construir, neste caso é, antes de tudo, desconstruir. Desconstruir preconceitos de si mesmo, desconstruir ideias que estão há muito tempo enraizadas, desconstruir sua história e até sua família. É principalmente, tomar consciência dos preconceitos que sofreu, e que sofre, sem tentar justificá-los.
Retomando alguns fatos passados, principalmente da minha infância, percebo o quanto o racismo, que muitas vezes partia de mim mesma ou de pessoas que amava, andou ao meu lado. Uma enxurrada de lembranças, de respostas às perguntas a tanto tempo deixadas de lado foram se desenrolando na minha frente, como num cinema.
Ao me lembrar de que já fui abertamente chamada de feia por ser negra, ao perceber que na adolescência o motivo de me relacionar amorosamente com pouquíssimos garotos não vinha do fato de eu ter amigas mais bonitas do que eu, ao me dar conta de que os apelidos que davam para meus cabelos não eram apenas brincadeiras, senti uma dor nunca antes sentida.
Meu pai é negro, minha mãe nasceu com a pele branca mesmo tendo também descendência negra e indígena. Eu sou negra de pele mais clara, mas na minha infância nunca consegui entender exatamente de que lado eu estava. Minha negritude foi tão podada pelo mundo a minha volta, que invejava e desejava ser como as crianças pretas que eu via brincando pela janela do Fusca marrom do meu pai. Me via pela metade, tentando buscar algo que sabia fazer parte de mim, mas que acreditava não ter direito de me apossar. Mas como invejar e desejar ser algo que eu sempre fui?
Ao mesmo tempo em que acredito que não é apenas a minha cor que pode me dizer o que sou ou deixo de ser, ainda tenho muitos momentos de dúvida. Olho quase todos os dias para meu rosto no espelho, ou para fotos antigas, procurando os traços que comprovam a minha negritude. Vejo fotos de mulheres negras e me comparo, buscando nelas, minhas próprias características.
Sempre que vejo algo relacionado à cultura negra e mesmo tentando construir minha negritude, ainda é muito difícil me sentir imersa neste mundo. E me pego novamente pensando como quando criança e me perguntando: será mesmo que eu tenho o direito de me apossar ao que me é de direito? Se é mesmo meu direito, o que me impede, que força é essa que não me deixa ser livre?
A tomada de consciência nos cobra um preço alto e bastante dolorido. É o primeiro passo dado num caminho sem volta. E apesar da minha consciência estar assim fragmentada e confusa como este texto, acredito que toda e qualquer construção é motivo de orgulho. E mesmo sem estar completa, fico feliz em ao menos ter encontrado os pedacinhos do meu mosaico. Com um pouco de cola, e talvez um pouco torto, um dia tudo ficará no lugar que deve estar.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

E a moça autista da novela, heim???


Eis que, de repente, minha caixa de email começou a lotar com mensagens de gente perguntando qualé a da moça da novela…
“Mas uma pessoa autista é daquele jeito mesmo?”
“Um autista pode namorar?”
“Pode isso, Arnaldo?”
(Não exatamente assim, mas meio por aí…)
Vamos começar esclarecendo só o seguinte:
1. A personagem da novela Amor à Vida, a Linda, NÃO É AUTISTA, ok? Apesar do autor “querer” retratar um indivíduo com Transtorno do Espectro Autista (TEA), as características demonstradas pela Linda no desenvolvimento da personagem são confusas e muitas vezes jamais se enquadrariam nas características de pessoas com TEA…
2. Pessoas autistas têm uma imensa variedade de características diferentes de indivíduo para indivíduo. Cada uma terá determinadas características diferentes das outras. Principalmente, há GRAUS variados de comprometimento desde um autismo leve (que a gente chama de “alto funcionamento”, porque geralmente não impede que a pessoa tenha uma vida relativamente “normal” e produtiva) até graus bem severos, em que há muito comprometimento das funções cognitivas, da comunicação e dos comportamentos.
3. O tratamento psicológico da Linda, como foi mostrado na novela, dá vontade de chorar. Sério: quantas vezes mesmo a gente viu o Psicologuinho-da-Novela em sessão terapêutica com a Linda? Eu contei três. E em NENHUMA delas o que foi mostrado chega nem em sonho perto do que é realmente o tratamento adequado para autismo. Teve uma cena em que o Psicologuinho-da-Novela segurava um cartaz  e dizia pra Linda: “Olha aqui, é assim que arruma a cama. Hoje você vai arrumar a cama, tá?” E daí a Linda ia lá e arrumava a cama… Not even in your wildest dreams que uma pessoa com comprometimento cognitivo severo – como era o que a personagem demonstrava naquele ponto da trama – ia adquirir uma habilidade tão complexa como arrumar a cama só de olhar pra um cartaz, ok??? ISSO NON ECXISTE!!!!
4. O desenvolvimento cognitivo, social e comunicativo da personagem deu um salto imenso desde que ela começou a ser tratada (em três sessões!) pelo Psicologuinho-da-Novela. Não é beeeeeeeeeeem assim que acontece… O tratamento do autismo é feito por diferentes profissionais: psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, T.O., neurologista, psiquiatra, e mais um monte de gente. E é um tratamento intensivo, todo o dia, o dia inteiro, e envolve também os pais e os cuidadores da criança. Se iniciado precocemente, quando a criança é bem pequenininha, o desenvolvimento pode ser quase igual ao de uma criança típica em algumas áreas. Mas quanto mais tarde o tratamento é iniciado, mais lento é o resultado.
5. Aí o Adêvogado-Gato apareceu, deu um monte de tintas, pincéis e cartolinas pra ela, e OLHA-SÓ!, praticamente CUROU o TEA da Linda. Só pra deixar BEM claro: amor só cura dor-de-cotovelo e DPPnB (Depressão Pós Pé-na-Bunda), ok???
(Disclaimer: Arteterapia é uma tipo de terapia de suporte válida e embasada em evidências. Dar um monte de guache prum indivíduo autista e falar “pintaê, meu filho!” NÃO É ARTETERAPIA!!!!)
Mas… mas… mas… Ora? Direis… Ouvir estrelas? Não, péra!
Mas afinal, O QUE É AUTISMO?

Bear with me.
O autismo é uma síndrome (aka, conjunto de sintomas) que compromete três áreasdo desenvolvimento:
a. a comunicação/linguagem fica seriamente comprometida, com grandes atrasos na compreensão e na produção da fala. Alguns autistas têm falas inadequadas e repetitivas (ecolalia), fora de contexto e muitas vezes desconectada da realidade.
b. a socialização: pessoas com TEA têm extrema dificuldade de manter contato social com outras pessoas. Bebês autistas não fazem contato visual e não conseguem manter atenção conjunta – se você apontar para um objeto, a criança vai olhar para a ponta do seu dedo e não para onde você está olhando e apontando. Muitas vezes os autistas relatam que não conseguem entender sinais de emoção nos outros, ou não conseguem entender e expressão suas próprias emoções e sentimentos. E a gente sabe que “são tantas emoções”… (Desculpa, não resisti.)
c. os comportamentos de pessoas autistas podem ser extremamente inadequados e inapropriados. Não é incomum acontecer comportamentos abusivos ou auto-lesivos, em que a pessoa pode se machucar sério se não for contida. Também é comum que pessoas dentro do espectro autista tenham interesses restritos por algum tipo de objeto ou assunto, e alguns casos raros isso pode gerar uma “super-especialização” ou alta habilidade, por exemplo, o cara se torna um virtuose do piano, ou é contratado pela CIA para descobrir códigos secretos. (Por favor, atenção ao adjetivo RARO. Obrigada.)
Então, de modo geral, o TEA (você vai achar por aí as nomenclaturas Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, Transtorno Global do Desenvolvimento ou Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação, porque o nome varia de acordo com o manual que você usa, mas é tudo praticamente a mesma coisa) é uma condição que compromete todo o desenvolvimento do indivíduo, porque seres humanos têm a incômoda mania de aprender coisas uns com os outros. Mas se o bebê já nasce com uma dificuldade de manter contato visual e atenção conjunta, fica difícil ensiná-lo a falar mamãe, a pegar o nariz do papai, a identificar quando a tia está sorrindo e sorrir de volta… e assim por diante, comprometendo todo o desenvolvimento cognitivo do indivíduo. Provavelmente por isso – a gente ainda não sabe com certeza absoluta, mas a hipótese é boa – há uma grande comorbidade entre autismo e déficit cognitivo.
Well… Todo esse preâmbulo pra chegar no assunto da semana, que é: “Mas e aí, o que você acha da moça autista da novela namorar?”
DO JEITO QUE ESTÁ NA NOVELA, ou seja, uma MENINA com sério comprometimento cognitivo e de comunicação, se envolvendo com UM HOMEM adulto, com desenvolvimento típico, provavelmente bem mais velho, e sem o consentimento da família: NÃO.
Fácil assim.
[Que parte de "uma MENINA que não é capaz de tomar decisões plenas se relacionando com um HOMEM mais velho e em situação de poder privilegiada" você acham que pode ser discutida?]
Ok. Moving on.
Como o autismo (assim como a deficiência cognitiva) tem vários graus, e cada indivíduo se desenvolve de maneira única, as coisas têm que ser analisadas caso a caso com muito cuidado e bom senso. (I know. I know…)
Muitas coisas deviam ser levadas em consideração em casos como esse: qual o grau de comprometimento cognitivo dessa pessoa? Ela consegue tomar decisões sozinha? Ela tem habilidade para pesar todas as consequências de suas decisões? Qual o grau de desenvolvimento emocional dessa pessoa (ou das duas envolvidas)? Há uma relação de poder e de “capacidades” muito desbalanceada entre as pessoas envolvidas? Esse relacionamento deve ser constantemente monitorado pelos pais e cuidadores ou o casal pode ter certo grau de autonomia e “intimidade”? E mais um monte de coisas…
As pessoa com TEA não têm necessariamente o desenvolvimento emocional comprometido, é claro que elas podem se apaixonar e ter um relacionamento romântico e/ou sexual saudável com outra pessoa. Há várias pessoas autistas casadas, pais e mães de família, que se dão muito bem obrigada com ou sem apoio externo. Mas há sim, e muitos, casos em que o autista precisa de supervisão e apoio constante até na idade adulta, porque ele não tem habilidade de tomar decisões complexas sozinho, ou não consegue se comunicar com eficiência, ou mesmo porque seu grau de desenvolvimento cognitivo não permite que ele  seja considerado “capaz” legalmente.
Pois é, tem mais essa questão da “capacidade legal”: pessoas com comprometimento cognitivo são consideradas como crianças pela lei. É o tal do “incapaz”, ou seja, a pessoa é “incapaz” de consentir com o avanço romântico e sexual de outra pessoa. Essa lei foi feita para proteger crianças e pessoas que não têm habilidade cognitiva suficiente para tomar decisões adequadas. Por um lado ela ajuda, mas por outro, pode atrapalhar quando o indivíduo, apesar do déficit cognitivo, é sim capaz de tomar decisões, mesmo que ele precise de ajuda e suporte profissional ou da família. Então, tudo tem que ser analisado com cuidadinho… e cada caso é um caso.
É. Tudo depende. Bem vindo ao mundo real, em que as coisas têm vários tons de cinza (UÔU!) e não são só preto ou branco.
 Postado por Divã de Einstein 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Nordeste com retrogosto

Por Nirlando Beirão
O Nordeste de Amores Roubados – a minissérie que a Globo exibiu esta semana, na sequência da nefanda Amor à Vida – é o Nordeste pós-Lula, afluente, industrial, eventualmente próspero, de casarões com adegas e carrões SUVs, mas que continua ancorado no patriarcalismo, empresários modernos com alma de coronéis obsoletos.
Um Nordeste cujo produtor de vinhos enverga uma barba digna de oligarca da República Velha, enquanto a filhota recém-chegada das Oropas confere ao Sertão – Sertão é, aliás, o hiperbólico e rebarbativo nome do município – o definitivo toque de modernidade, projetando-se de uma ponte do São Francisco, no deleite vertiginoso do bungee jump.
Mulheres que se jogam é a metáfora aparentemente fácil que contrapõe o predomínio machista às angústias de senhoras sexualmente desassistidas – e para cujo reconforto afetivo entra em cena o bonitão urbanizado e nem por isso menos cafajeste, caracterizado no ofício sabidamente insidioso de sommelier, especialista em gosto e retrogosto.
É interessante perceber, na Globo, a prospecção de novos formatos de dramaturgia, ainda que relegados ao horário das corujas. Vale também festejar a maturidade de atores crescidos no Projac (Cauã Reymond, Isis Valverde, Murilo Benício). Pena que ninguém cogitou, para o papel de coronel arrependido, do governador Eduardo Campos.

O mérito maior do autor George Moura e do diretor José Luiz Villarim) é revelar um Nordeste além da caricatura. A começar pelo sotaque mais sutil, mais nuançado, sem o exagero das produções à Jorge Amado. Fugir do sotaque forçado é fugir da prisão do estereótipo. Patrícia Pillar, que tem conhecimento de causa, deve ter ajudado no coaching.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

"Por que você escreve essas coisas de preto?"

Foto: SeCom Bahia

Recentemente me perguntaram  por que escrevo " essas coisas de preto" Não foi só uma vez. Poderia dizes que escrevo " coisas de preto" porque sou preto, ou porque quero afirmar ou externalizar a minha identidade. Assim como seria possível dizer que escrevo a fim de encontrar, por meio das "coisas de preto", outros pretos - inserção, acolhimento e proteção. Posso também afirmar  que escrevo para que outros pretos se protejam  e encontrem pares de vivências. Tudo isso é motivação e não deixa de ser verdade. 

E mais. É válido que escrevo "coisas de preto" para denunciar tanto o genocídio da nossa juventude negra quanto a falta de oportunidade e os obstáculos impostos especificamente aos negros quando se fala em escolaridade e mercado de trabalho. Ou, ainda para derrubar padrões que excluem  o corpo negro ou que o coisificam por meio da hipersexualização. Escrevo, "coisas de preto"  por isso também não é mentira.

Escrevo "coisas de preto" por querer ser um contador de histórias. E quero também contar a nossa história, como muitos outros negros já fazem há mais tempo e melhor que eu. O protagonismo me impulsiona: preto contando "coisas de preto"  

Tô cansado de não negros dizendo como devemos ser, pensar e agir. De forma geral, isso só resultou em exclusão, em marginalização, em estigmatização e em genocídio de quem é preto. Existem as exceções. Existem, mas, por mais que haja um nível de empatia transcendental, o branco nunca vai dar de cara com os mesmos obstáculos, quem dirá ter que superá-los. Aliados são mais que bem-vindos. A luta precisa de vocês. Mas o protagonismo é nosso, é preto.  

É tempo de nossa voz ser ouvida e respeitada. Há um pensamento coletivo de que nós, pretos, somos radicais quando falamos de racismo, enquanto brancos são sensatos  falando do mesmo assunto com as mesmas palavras. Escrevo para acabar com essa lucidez seletiva que só legitima o outro, o não preto, para contar as nossas " coisas de preto".

Tem quem cante, tem quem atue, tem quem produz, tem quem legisla, e tem quem debate "coisas de preto" . Eu escrevo. É a arma que possuo. Posso até não manejá-la da melhor forma - ainda. tenho noção que o aprendizado é constante e a vontade de acertar o alvo é grande. É também por isso que escrevo essas "coisas de preto".

Sigo com o racismo na mira: uma hora ele não escapa!

Texto escrito por Higor Faria - preto, publicitário, estuda masculinidade negra e escreve no https://medium.com/@higorfaria
 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Darcy Ribeiro - Fundação Darcy Ribeiro
Eu tenho certeza que nós fizemos um país bonito, temos é que enforcar os canalhas. Os finos e educados, temos que enforcar. Mas, olha, o que eu digo, sempre, é muito fácil fazer uma Austrália: pega meia dúzia de franceses, ingleses, irlandeses e italianos, joga numa ilha deserta, eles matam os índios e fazem uma Inglaterra de segunda, porra, de terceira, aquela merda.
O Brasil precisa aprender que aquilo é uma merda, que o Canadá é uma merda, porque repete a Europa. É para ver que nós temos a aventura de fazer o gênero humano novo, a mestiçagem na carne e no espírito. Mestiço é que é bom.
Minha carne na Europa nunca foi tomada por portuguesa, ou por espanhola, ou por grega. Perguntaram se eu era persa, porque tinha muito mais cara de árabe, que parece muito mais com cara de índio.
Essas carnes velhas nossas não são caras viáveis na Europa. Então, nós fizemos um povo. Um povo capaz de herdar 10 mil anos de sabedoria indígena, de adaptação ao trópico e fazer uma civilização tropical. Depois é que o europeu chega aqui, plantando trigo. Esse povo está aí e eu digo que somos a nova Roma. Em Roma, querem que vá falar disso, querem que eu escreva mais artigos. E por que nova Roma? Somos a maior massa latina. Os franceses ficaram tocando punheta, os italianos bebendo chianti, os romenos com medo dos russos, quem saiu fodendo por aí foi espanhol e português e fizemos uma massa de gente que é de 500 milhões.
Então, os latinos só se multiplicaram aqui. Há dois mil e quinhentos anos saíram soldados do laço da Etrúria, falando latim, fizeram a França, fizeram Portugal, não sabem como. Pegaram os selvagens de lá, latinizaram e permaneceram. Como é que permaneceram em plena Península Ibérica, com 900 anos de domínio árabe e não se arabizaram? Como é que aguentaram todas as invasões e se mantiveram?
Nós somos melhores, porque lavados em sangue negro, em sangue índio, melhorado, tropical. Então, no futuro, você vai ver daqui a 100 anos, numa reunião, qualquer uma da humanidade, aquele bloco enorme de chineses, vão sobrar chineses, mais da metade dos homens serão chineses. Um absurdo! Vai haver quantidade de árabes, mil milhões de árabes. Importantíssimo, serão uma nova civilização, mil milhões de árabes fiéis à arabidade. Haverá 500 milhões de neobritânicos, haverá muitos outros. E haverá mil milhões de latino-americanos, que somos nós, os latinos. Só nós estamos com a cara lá, nós somos Roma.
Na reunião da humanidade, o que é importante não é a França, a Europa. Aquilo que dizia Sartre. A Europa, aquela peninsulazinha da Ásia, dobrada sobre a África, vai ficar reduzida ao seu tamanho. Vai ficar no mundo, no futuro, a América Latina, e na América Latina o Brasil, o Brasil com 300 milhões de habitantes.
Não é uma beleza? Mas querem acabar com a foda aqui, querem nos liquidar. O que eu quero é que esse povo cresça e esse povo vai realizar sua potencialidade. Não é possível que durante tantos séculos uma classe dominante infiel nos queira explorar como um proletariado externo. Isso não vai continuar, não. Eu escrevi um livro, “O Povo Brasileiro”, que vai ajudar aos brasileiros a se assumirem com orgulho como a nova Roma e entenderem que nós somos muito mais difíceis de fazer do que a merdinha da Austrália. Que nós estamos nos fazendo, que nós vamos amadurecer e é preciso vencer um dia a canalha. Eu quase venci em 1964. É claro que eu não podia vencer, com Lyndon Johnson mandando os navios dele para cá, com o jango não querendo brigar. Mas quase vencemos.
Somos uma Roma tardia. O seu gene tem gene Tupinambá, os que foram mortos. É a herança dos trópicos, vai melhorar. No dia em que a economia não seja para exportar, mas seja, como a norte-americana, para consumir.
*Capítulo de longa entrevista concedida por Darcy Ribeiro (1922-1997) a Antonio Callado, Antonio Houaiss, Eric Nepomuceno, Oscar Niemeyer, Ferreira Gullar, Zelito Viana e Zuenir Ventura, mediados pelo editor Renato Guimarães. Do livro “Mestiço É Que É Bom” (editora Revan, 1997)
Publicado em 18 de setembro de 2012

De Socialista Morena

domingo, 1 de dezembro de 2013

O CRIME DE GARANHUNS/ ANALISE PSICOLÓGICA DO CASO



Nos últimos dias um crime hediondo impactou toda a sociedade, em especial a cidade de Garanhuns- PE. Um trio foi acusado de três homicídios e práticas de canibalismo. O trio é formado pelo faixa preta de karatê Jorge Beltrão e sua mulher Isabel Cristina, e sua amante Bruna Cristina Oliveira, todos seguidores de uma seita chamada “Cartel”, anticapitalista e contra o crescimento populacional, eles comiam pedaços das carnes dos corpos das vitimas como forma de purificação da alma. (UOL NOTICIAS-2012).

Baseado nos estudos de peritos e criminologistas podemos afirmar que o crime foi motivado por desejos sexuais, baseado nos desenhos encontrado em sua residência. Isso também prova que o crime foi organizado, indo de encontro com o discurso do criminoso quando diz que sofre de um transtorno mental “esquizofrenia”. sendo que o psicótico não premedita e não organiza cenas de crime, Baseado na motivação e organização do crime e os rituais que foram realizados, podemos chamar esse criminoso de serial Killers ( uma assassino em série).

Serial Killer: Um assassino em série (também conhecido pelo nome em inglês, serial killer) é um tipo de criminoso de perfil psicopatológico que comete crimes com certa frequência, geralmente seguindo um modus operandi e às vezes deixando sua "assinatura” (Wikipédia 2012).

Baseado no processo de escolhas das vitimas e a forma que os criminosos utilizaram, podemos identificar as motivações. É importante analisar que as vitimas eram todas mulheres. Os crimes sexuais estão relacionados a uma compulsão ou pulsão. Segundo a psicanalise a Compulsão é a repetição: um retorno às origens da metapsicologia freudiana. Patologia presente nos criminosos em série, e esta relacionado com um transtorno de Personalidade antissocial ou desenvolvimento de um transtorno de causa desconhecida.

ILANA CASOY SOBRE CRIME EM SERIE

" Não dá para entender a cabeça observando o comportamento criminoso. Não dá! Dizer que o cara que mata três ou mais pessoas é doente mental é uma questão psiquiátrica e até jurídica. É por isso que não dá para dizer que todo serial killer é psicopata".

Freud sobre compulsão

É possível precisar dois momentos específicos na teorização freudiana: sobre a repetição. São eles: “Recordar, repetir e elaborar” (1914) e Além do princípio deprazer (1920). Contudo, Freud faz menção a este tema em diversas ocasiões ao longo de sua construção teórica, seja antes de 1914 ou posteriormente a 1920

Os Desenhos feito pelo assassino demonstra a presença da pulsão de morte, sintomas de parafilias que nos reforça a motivação para o crime, e a principal característica a misoginia. 

Flávio Gikovate

Flávio Gikovate

A sensação de aconchego é remédio para aquela incompletude que nos acompanha desde o nascimento: nosso primeiro objeto de amor é nossa mãe.

Em papeis antagônicos, o bebê e sua mãe sentem a mesma emoção: o amor entre ambos é recíproco, apesar de que um cuida e o outro é cuidado.

É interessante refletir sobre essa relação, pois a mãe, ao acolher e amamentar seu filho, também experimenta intensa sensação de aconchego!

O usual é que nas relações íntimas entre adultos haja a repetição dessa dualidade: um parceiro é o que cuida mais enquanto o outro é cuidado.

A regra é que o que cuida mais tenha certeza de seus sentimentos. O que é cuidado, pelas vantagens que obtém, tende a duvidar de quanto ama.

Não é exagero pensar que os que, no elo amoroso, preferem ser cuidados ao invés de cuidar, são mais imaturos emocionalmente e mais egoístas.

Nas relações entre adultos mais maduros, os papeis se alternam: o homem é por vezes o pai ou então o filho; e a mulher é a mãe ou a filha!